eu lembro de um elástico no pulso. o cabelo preso no alto da cabeça, meio torto. a estante da minha avó, alta demais, cheirando a pó e papel amarelado. eu sentada no chão, bochecha quente, um livro aberto no colo e o mundo inteiro cabendo ali.
aí eu cresci, e aposto que você também. o cabelo continua preso, agora pra dar conta do e-mail, da reunião, da conta pra pagar. scroll, scroll, scroll. a notícia antes do café, o vídeo de trinta segundos que vira quarenta minutos, o nome daquela autora que estava na ponta da língua e sumiu. scroll. a impressão de que a gente já soube pensar melhor. scroll. o livro na cabeceira, marcado na mesma página há três meses.
e a gente vai desbotando. lava, lava, lava, até ficar da cor da cidade: cinza de prédio, cinza de tela, cinza de dia que passou sem ninguém notar. tudo tão digital, tão artificial.
e um dia acende.
lindo, assombroso, incômodo. uma frase que corta, outra que derrete na boca, uma página que cheira a terra molhada, um quadro que encara de volta. o pelo arrepia, o olho brilha, e a cor volta pra bochecha.
contemplo nasce pra isso. ler devagar. ler de novo. ler e conversar sobre o que ficou, puxando o fio que liga o romance à filosofia, a filosofia ao cinema, o cinema à vida aqui fora.
a gente começa pela literatura porque um livro abre portas e mundos. do outro lado tem pensamento mais afiado, palavra nova pra coisa antiga, aquele nome que tinha sumido da ponta da língua, a beleza que estava ali o tempo todo esperando alguém olhar.
contemplar é se deixar acender, um pouco por dia.
prende o cabelo.a próxima página é sua.

























